Desbloquear a escrita tem técnica, tem truque, tem jeito, mas na verdade o que realmente queremos, é desbloquear as ideias, e isso é bem mais difícil. Pensar sem rede, nem sempre é fácil, pensar sem objectivo, mais difícil será, e apenas pensar, é impossível. Agir em forma de pensamento, é dar azos à recriação da mente humana, e isso, deixa-nos preguiçosos, como que amedrontados, com a sensação de não controlarmos os pensamentos seguintes. Pensar, na verdade é um acto de coragem, um acto de quem se deixa assaltar, a si, e à sua mente, por tiros de rajada, vindos de todas as partes. Pensar não é um acto linear, muito menos crescente, será um acto arrítmico, com um compasso por marcar.
Os meus pensamentos não os controlo, o discurso, esse sim é bem mais fácil, embora se cometam, diariamente erros básicos de linguagem, a minha escrita, essa, nem sequer existe, nem sequer é consistente, aliás nem sei, se sou eu verdadeiramente a falar, não sei mesmo, é certo, se quando se escreve, não serão outras vozes lá do fundo, a chegarem-se à frente, em nós, serão elas que realmente, deixam as suas vozes registadas no papel.
À que despistar a mente, para que ela entorpeça os olhos e os ouvidos, e nos deixe finalmente escrever, indo ao mais profundo dos lugares que nunca pisamos. É preciso por de lado os sentidos, perfila-los, um a um, tal qual tropas em formatura, e aos poucos, iniciar a viagem. Escrever, sem dúvida é viajar quase sempre só, embora tenhamos o poder, de criar todo o tipo de personagens, para nos fazerem companhia, nos darem a mão ou até mesmo serem elas a empurrarem-nos corredor a dentro sem piedade, construímos o que vemos, e vivemos o que construímos, erguemos muros que num vamos transpor, e aos mesmo tempo, estendemos passadeiras vermelhas para ir mais depressa, somos o que mais jeito nos der ser, parecer e até simplesmente dizer, somos o nosso próprio reflexo, escrito na folha de papel, ou somos espelho do que nunca lá se verá reflectido.
Seguimos viagem, parando apalermados em frente a qualquer caminho ou encruzilhada, há sempre a tentação de escolher o caminho mais fácil, ou o caminho mais rápido, enfim, escolher quase sempre, o caminho mais óbvio, dá jeito, ou nem tanto. Chamamos então, nessas alturas, sim, impacientes, pelos sentidos, que agora mais do que nunca, nos dão jeito, desfazemos a formatura sem complacência, pois os olhos já se mostram insuficientes, para perceber o que fazer, ou sentir a seguir. Fechando os olhos, criamos à nossa frente, o cavaleiro que se baterá por nós, e pela nossa personagem favorita, na batalha tantas vezes repetida, do confronto entre o bem e o mal, entre o concreto e o impreciso, um episódio com um final, que de tantas vezes que é escrito, já pode parar de se escrever. Usamos as armas mais à mão, para seguir caminho, e se por ventura estiverem por inventar, inventa-se à pressão a arma mais certeira e mais imprecisa, que alguma vez se virá, puxando está claro, dos galões da imaginação, e da dose que nos pareça certa, de inconsciência, para que os artefactos apareçam, à medida que são necessários. Fazemos as personagens viver, tudo aquilo que não somos capazes de viver, ou então, fazemo-las sentir tudo com mais intensidade, daquela que lhes fomos capazes de dar, nós próprios, desejando para umas, que sejam tal qual Tin Tin nas suas aventuras aos quadradinhos, outras que se tornem, em Mafaldas e suas dúvidas, tios Patinhas e os seus planos mirabolantes, ou até mesmo que sejam como João Sem Medo, que mostrou ter a coragem de sair muito para lá dos muros da sua terra. Construímos novos mundos, para que elas riam, e se houver tempo, para que chorem também, edificamos estórias lineares, mas a meio, vem-nos à lembrança, que o pensamento bem como a vida, não é linear, e não vamos de retoques, alicerçando logo reviravoltas afortunadas, se tudo até então parecer uma desgraça, aligeiramos o discurso, procurando novos acontecimentos com piada, ou então o oposto, reviravoltas desgraçadas, que acentuem as diferenças entre os nossos sonhos de menino, e o nosso último pensamento antes da morte, fazendo pontes entre o que foi outrora o nosso propósito de viajar e tudo aquilo que ficou por fazer, por ver, por escrever. Fazemos um balanço entre a quantidade de lixo que nos assalta a memória, e as palavras que deveras registamos, nas linhas do caderno que finalmente estamos prestes a fechar. Escrevemos porque damos mais sentido ao que pensamos, vivemos, rimos e choramos, é tal como um grande disse um dia, “escrever é a arte mais próxima do pensamento.”