quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Na Melodia de silêncio


Num abraço de clausura
De um silêncio que te castiga
És a noite que te envenena
A dança lenta que te fustiga

Somos a sombra que escurece tudo
Quando nos perdemos de nós próprios
A tinta escura que tinge as outras
Num quadro triste sem parede

De olhos abertos na escuridão
É ver-nos recuar a meio
Desta besta negra, a solidão

Melodia de silêncio por desligar
De uma tristeza quase patológica
Que não se abandona por dar cá aquela palha

quinta-feira, 31 de março de 2011

Homem imperfeito



Os pássaros voavam no céu, como se voassem de júbilo pela chegada da Primavera, voavam neuróticos desenhando linhas rasgadas de negro, no azul, mais azul, do Inverno herdado pela Primavera. Está deitado no muro olhando o céu com os ouvidos, o velho Orpheu desafiava as alturas fechando os olhos, para melhor sentir a chegada dos raios de sol quente, que lhe desvelavam verdadeiros mapas de estradas rugosas na pele dura do seu rosto velho, como só um rosto de setenta e muitos anos pode ter. De vez em quando, sem nunca abrir os olhos, entretinha-se a contar as nuvens que passavam e lhe filtravam a luz alaranjada nos seus olhos fechados.
Repousava singular com a sua pele queimada e cravada pelo tempo, sobre a brancura da cal do muro, alto, pintado, ano sim ano não, pelas mulheres do monte. A cal ondulante com mais de mil camadas, reflectia a luz e o calor aquecendo, as peles, as carnes e os ossos do velho Orpheu, que se deleitava com os aromas das laranjeiras e videiras que do alto do muro se fundiam e repartiam para ambos os lados. Com os olhos fechados dividia o tempo em números contados em forma de nuvem, em silêncio, mas num silêncio diferente, ele, como se nada mais o preenchesse inspirava profundamente os aromas doces, que o deixavam cada vez mais embriagado. Quando, meio que acordado, abriu um olho, depois outro, como que para garantir que era seguro, e que a luz não o cegaria, rodou a cabeça na direcção do monte sem telhado e atirou os olhos no rasgado deserto verdejante, onde nem viva’alma o preenchia. Nessa altura, um bando de pássaros atravessa-se no seu olhar perdido, um pássaro, faz um voo rasante na sua direcção, planando como se o tempo parasse, justamente por cima do corpo ainda deitado no muro, do velho Orpheu, e diz:
- Aqui até o vento sabe aquilo que se passou…Se ao menos fizesse algum sentido!
e a voz, que nada mais disse, ecoou repetidamente sete vezes na imensidão da planície. Orpheu, sem dizer mais nada, num gesto de ira, e como se os seus braços por momentos ganhassem a força e a rapidez dos seus vinte anos, lançou a sua mão direita despedida na direcção do bicho. Com a sua mão escura, de dedos largos e gordos, agarrou impetuosamente o pássaro, apertando cada um dos seus dedos de encontro à palma da mão, fazendo-se ouvir um abafado ranger de ossos miudinhos.
O silêncio dilatou-se, preenchendo cada espaço. Orpheu cai em seguida, desamparado no chão, sem nunca abrir a mão direita que aperta com todas as suas forças, caído no chão, já com os seus setenta e muitos anos, sente cada pedaço do seu corpo desacelerar bruscamente na terra, que por sorte ainda macia dos dias de chuva, o recebe sem grandes estragos. Por momentos perde a noção do tempo, deixando-se estar caído no chão durante largos minutos em que fica desacordado. Ao acordar, quase que instintivamente procura a sua mão direita repousada ao longo do tronco, e ainda fechada, coloca-a frente à cara, e na qual sentia um leve formigueiro, começa a abrir a mão lentamente, acredito que com medo, do que vai encontrar.
-Onde pensavas tu que ias? - grita o velho enraivecido - Mas, que se passa, que diabos!
e nada, nem sombras de pássaros, ao abrir a mão berrou com voz de quem manda, mas não encontrou nada, nem sinal de bicho nenhum.
-Nada! - Sacode a roupa da terra vermelha e levanta-se, de uma assentada eliminando os vestígios do seu delírio. Começa a andar, ainda encurvado da queda, cambaleante segue como quem carrega um fardo às costas, um fardo muito maior do que as suas forças, segue pé ante pé, em direcção ao monte. Caminha lentamente, perseguido pelo sua própria sombra, que do andar das horas já lhe faz alongar a figura. O entardecer aproxima-se, aquela hora em que os corpos são deixados à sua mercê. Percorrendo o chão, que outrora deu uvas, calca os sapatos na terra macia deixando um rasto para cada passo. Inelutável caminha lentamente em direcção ao monte. Quanto mais anda, mais sente que o monte cresce, perante os seus olhos envelhecidos, naquele preciso instante em que crava os joelhos em terra, como que a dizer:
-Desisto! - olha as suas mãos, e os seus dedos embrutecidos, de homem imperfeito profusamente só. Não se reconhecendo, primeiro, ouve vozes de crianças a correr de lado para lado, a brincar em volta do poço do monte junto à casa ainda com telhado, depois levanta-se em direcção à porta de madeira da casa. Leva a mão à porta e com um simples empurrar dá de caras com uma mulher estendida no chão da cozinha, uma mulher envolta em sangue que agoniza de olhos bem abertos pedindo ajuda com dois tiros de caçadeira no peito. Orpheu volta a olhar as mãos, e fica aterrado quando vê que sobre elas está uma arma ainda quente, num soluçar de choro irrompe porta fora, matando os seus dois filhos, que depois carrega até junto do poço, sem água do monte, e os deixa cair eternamente na sua saudade, faz o mesmo com a mulher que ainda geme tentando dizer uma última palavra, mas com a boca invadida pelo sangue, e ao colo do seu marido que a lança para dentro do poço apenas com os olhos consegue, esboçar um - "Porquê?" Depois apenas silêncio, mas um silêncio diferente, um eco de saudade, que lhe acertava, puxando-o também para dentro do poço.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Desamparo

É urgente meter mãos à obra, desligar todos os mecanismos de despiste, que nos adormecem no dia a dia, desligar as máquinas, que ao invés de nos manterem vivos, nos entorpeçam os movimentos. É urgente acordar, empurrar as palavras contra o papel, aprisiona-las no formato que melhor lhe servir, para que preencham o seu fim, e se vistam com os seus melhores tecidos, para que da ponta da caneta nasçam, os mais sentidos e entrelaçados panos. Só o homem conhece a mais profunda experiência de desamparo, só ele, acarinhado como nenhum outro animal, pode viver agarrado à vida, por isso desengana-te, se o que achas que procuras, é liberdade. Na verdade, e verdades há muitas, não tem de necessariamente existir só esta, estamos para sempre agarrados às saias da mãe, agarrados à criação de dependências, patronatos a que nos possamos suspender, outra vez suspender, uma e outra vez.
Dizer, eu, pode ser um sinal de humildade, mas todos os dias, visto a armadura de pano, sempre bem colada a mim, como uma segunda pele uma segunda sombra, que as minhas palavras vão tecendo e os meus pensamentos dissipando. Por simplesmente não conhecerem forças para as atirar contra a folha de papel, o papel, esse, é o melhor ouvinte, mas não o melhor espectador, porque nunca passa disso mesmo, muitas vezes a tinta teimosa da caneta teima também ela em desprender-se, teima em fugir, ou em rasurar tudo o que ficou escrito, que para efeitos dá no mesmo que sumir-se.
-Há algum sentido nisso?
-Não ouves?
E apesar de ouvir respondo que não, quem anda de noite a correr atrás de folhas de papel, e palavras suspensas que se emaranham umas nas outras, sabe bem que as vozes, que não reconhecemos, por serem as nossas, nos mandam disparar ao calhas, e mesmo sem nunca ter posto os pés na guerra, sei que passo a vida a remendar, a armadora que eu própria dilacero durante o dia. Só o homem conhece a mais profunda experiência de desamparo, só ele, acarinhado como nenhum outro animal, pode viver agarrado à vida. Só ele se preocupa com o descer antes de subir, com o acordar antes de dormir,  com o levantar antes de cair, com o partir antes de chegar, com o chorar antes de sorrir, com o morrer antes de nascer. Só ele desamparado como nenhum outro, espera paciente que a força venha, cheia de músculos é certo, e que "as nuvens forradas de olhos" cessem as suas copiosas fontes de chorinquices.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Atalhar caminho



Para quem anda a pé pelas ruas menos suspeitas da cidade, seria de prever, que a repetição dos dias, e as sucessivas viagens pelos mesmos lugares, fizessem com que eles se tornassem especiais. Nada mais longe da verdade, portanto, se bem me lembro, e em prol da verdade, quantas mais vezes passamos por um sitio, menos o fitamos na realidade, mais vago se torna, tudo aquilo que os nossos sentidos alcançam. Deixamos de percepcionar as partes, fixando-nos apenas no todo, que garanto-vos, não ser o bastante para fazer uma descrição credível, por isso na nossa condição de criaturas preguiçosos, temos o poder para transformar os espaços, porque na realidade deixa-mos de os ver, pura e simplesmente, limitando-nos a accionar cá dentro o botão mágico, com a placa de metal em cima que tem escrito, Piloto Automático, em letras bem grandes, caso existam mentes mais míopes do que a minha, e para que não se corra o risco de não conseguir ler.

Por isso atalhamos caminho, e seguimos pelas ruas mais desertas, sem ter que nos preocupar com semáforos constantemente avermelhados a rirem-se para nós, seguimos em marcha apreçada, ziguezagueando, ora em redor de buracos no passeio, renovados a cada manhã, ora por postes de iluminação, que sempre lá estiveram, mas com os quais em certo dia teremos um encontro inesperado, carros a apitar, porque alguém a dada altura se esquece que naquela rua também passam carros de meia em meia hora, calçada portuguesa resvaladiça com altos e baixos por remediar, gente parada, a ganhar fôlego, no meio do passeio estreito, carregadas com sacos de compras, que pouco ou nada distam do chão.

Avançamos tacteando com os pés, com a música bem dentro dos ouvidos, como se a nossa vida por momentos tivesse direito a banda sonora, chegamos ou final da rua número sete, mesmo antes de nos prepararmos para subir, virando à direita no prédio amarelo, pintado de fresco, onde antes os andaimes de ferro se alongavam no céu, num perpetuar de ferros aguçados a querer rasgar as nuvens, uma senhora, por momentos saída de meados do século passado, tão pequena e tão antiga, chega à varanda, onde antes eu só entrevia uma nespereira, inesperadamente oprimida entre o betão, de um lado amarelo, pintado de fresco, do outro verde, existe um pátio ínfimo com gente dentro, e num primeiro olhar não diria ter mais de 10m2, nunca vira lá ninguém até então, a senhora abriu o portão, e deixando-se ver disse:
-Que dia é hoje, menina? É quinta?
Eu aturdida, por aquele ser antigo ainda falar, respondo:
-É terça!
A senhora agradece, mas volta a perguntar o mesmo a alguém que segue depois de mim, e depois e depois. É como se tivesse memória de peixe e a informação não ecoasse mais de três segundo dentro do seu cérebro, acho que foi a única vez que fiquei especada a olhar para trás naquela rua, aliás tenho a certeza, como que à procura de uma explicação que desse sentido ao que os meus ouvidos e olhos acabavam de assistir. No dia seguinte lá estava ela, pronta a fazer a mesma pergunta a que quer que seja que por ali passasse, e eu já com a resposta na ponta da língua, esperei que voltasse a perguntar e respondi:
-É quarta-feira senhora. - desta vez sigo sem olhar para trás, mas todos os dias vêm-me à cabeça teorias novas. Até já cheguei a pensar se a senhora teria acordado de um coma profundo, estivesse à muito sozinha em casa, não conhece-se nada, nem ninguém, teria ale acordado de um coma, de muitos anos, ou hibernado tempo demais, dentro do seu cubículo térreo sem janelas, e acordado rodeada de prédios altos sem saber que dia era. Isso ou fria e, sensatamente pensando, a solidão, essa morte lenta que desacelera a vida, que apaga a memoria dos novos, e dos velhos, com uma borracha cobarde, que desliga tudo ao seu passar.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O que poderia ser isto?

A madrugada. O momento em que as massas descançam, o momento em que os corpos sucumbem ao repouso apaziguador das suas carnes. O instante em que os corpos esbatem as guardas de honra, dos seus portões da mente e adentramos num frenesim de memórias, ou meras projecções desconexas, em forma de objectos e de gentes em que a noite predomina e os planos se sobrepõem como numa película de filme, cuja cor já gasta, acusa uso indiscriminado.
Nesse instante, em que o contrabalanço dos dois pratos da balança, que ora pende para um lado, ora pende para o outro, discai de vez para o lado onírico, esse lado desactivado da razão.

A mente. Aquele grande pedaço de nós, que tem vontades próprias, e que se desprende com uma facilidade imensa da nossa pele, sempre que adormecemos, é como se a força da gravidade que nos puxa infinitamente para baixo, não tivesse forças tamanhas para segurar o pensamento dentro da nossa morada, e por isso ele corre livre e sem necessidade de pontes, salta entre margens, esticando a mão e tocando no fundo das coisas.
Qualquer massa exerce forças sobre as restantes, num jogo de poder que alguém institui-o dando ordens para que tudo, para lá das varandas dos nossos olhos, girasse em torno de eixos assimétricos que alguém aglutinou dando forças às massas, para depois se esquecer da fórmula, transformando essa aproximação entre os seres, numa queda constante.

A gravitação. Seremos nós planetas em órbitas por delinear? Seremos cada um de nós meros corpos celestes em agitação constante, que só conhecemos o nosso astro singular ao cair do pano.
Somos ou não planetas, indistintos de todo o resto? Seremos até capazes de permanecer eternamente na nossa curva em volta do sol, mesmo que as vezes nos apeteça apanhar boleia das rotas dos outros.
Serão tantas as órbitas paralelas em volta minha que nem dou conta da sua presença. O ser humano continua a ter esta grande capacidade inútil de alcançar o óbvio, por isso só reparamos no outro, quando entramos em rota de colisão, só vemos o outro quando ele está à nossa frente.
Parece ser o universo o maior responsável pela atracção e repulsa dos corpos, pela escolha das órbitas e dos seus desvios do dia-a-dia, até quando alteramos o nosso percurso para o trabalho, indo por outra rua que não a de sempre, puxados por uma força que nos atrai, estamos expostos ao que o universo nos reservar, quem sabe, se com um simples mudar de rua não dá-mos de caras com um novo pedaço de vida, essa pequena pista que nos vai levar ao que nos toca viver a seguir.
É ele que dita a hora, o minuto e o preciso instante em que tudo muda, em que os corpos atraídos pelas suas massas se aproximam de uns e se afastam de outros irreparavelmente, por mais próximos que já possamos ter estado, por mais que os olhares se tenham cruzado, por mais que a vida os tenha colocado no mesmo lugar, apenas nesse instante, cozinhado em lume brando à muito pelo universo, essa presença fará sentido. É ele o verdadeiro maestro, que orquestra todas as notas musicais que somos, para que as massas ecoem finalmente em uníssono.

O corpo e o tempo. Como planetas que somos, de orbitas irrepetíveis, precisamos de bem mais de 365 dias, para completar a nossa curva em volta do sol. Orbitamos em volta desse grande astro que é o tempo, o tempo, essa grande deriva dos objectos, que tudo baliza, que tudo delimita por ser a única estação constante que nos acompanha ao longo da curva em volta do sol. O comboio, esse pode parar a qualquer momento, quer tenham passado 5, 22, 35, 58, 80 ou 95 anos de órbita, quer seja por capricho, obstáculos na via, ou caris enferrujados, o tempo esse, que tudo encaixa, é a constante que nos gera e nos elimina, e no entanto...se o tempo deixasse de existir tudo seria imagem, todo o universo viveria num eterno congelamento, tudo seria emoldurável, permanente, duradouro e constante como até agora só o tempo o podia ser, nenhum fruto mudaria de cor, nenhuma semente podia geminar, nenhuma folha caía ao chão, nunca a pele envelheceria. A chuva deixaria de cair no chão, ficava suspensa eternamente no céu, as órbitas paravam e o sol deixava de exercer força sobre nós, deixaríamos de estar constantemente em queda para passar a estar constantemente suspensos, como a chuva que nunca alcança a terra por não saber cair.

O universo. Viveria uma eternidade à espera que as órbitas retomassem o seu curso, para poder intervir nas nossas vidas, só ecoariam orquestras de silêncio, por nada poder mudar de sítio.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Música de fundo

Mergulho neste ritmo meio frenético de acordes que não decifro, mergulho em águas que desconheço, venho ao cimo de quando em vez, encho os pulmões como uma esponja que afaga o oxigénio no seu interior, volto ao fundo sem conseguir desifrar, pesa-me o corpo, pesam-me os braços, pesam-me as pernas e a alma.
A música deste mergulho dá ritmo as palavras, mas pouco sentido ao que vejo, as profundesas esbatem a som e a luz, pois não revelam os seus muros, a sua imensidão de vazio prolonga este som tornando-o infinito, este som que me trespassa e que depois se afasta de mim, rasga-me em pedaços a carne que tenho vestida. A energia das notas, que não sei quais são, dá um impulso aos restos de coisa quebrada, abrançam-me numa fusão de composto químico em laboratorio.
Deriva a carne que se perdeu para sempre, resta a alma que ainda luta, restam os pulmões que desenho á pressa, resta Ser e não o Ter.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Adamastor - PARTE I

Corria o ano de 1902, corria não, andava, o país vivia envolto em pobreza, todos aqueles que não gozavam da graça de ter nascido em seios de famílias fidalgas, viviam à sorte. A miséria, dos seus pés descalços delatava os seus corpos frágeis e bem magros, por baixo das vestes gastas, sempre vários números acima do que seria recomendado. Mas naquele tempo era assim.
Alcântara era viva prova disso, à época, as pessoas sobreviviam amontoadas como caixotes, o jovem Adamastor era apenas mais um, que com suas formas esguias povoava estas paragens, era um jovem humilde de família farta, que cedo começou a trabalhar, primeiro numa fábrica de conservas e mais tarde na fábrica da pólvora. A mesma sorte que muitos jovens à época.
Penso: ter sido por estas alturas que em Lisboa corriam rumores de um surto de tuberculose, a acumulação de gentes, a alimentação mais do que precária, a pouca ventilação dos locais de trabalho aliada à escassa higiene individual, formavam o forno ideal para a proliferação de uma doença que viria a dizimar gente a fornadas, não de bolos, mas de morto, entenda-se.
A população pouco ou nada sabia sobre a doença, o governo, esse, nesse ano só se lhe conhece uma medida digna de realça, que foi o ter assinado um edital em que se proibia o velho hábito português de “escarrar ou cuspir fora dos escarradores próprios sob pena de 500 reis de multa”, e é pena que esta medida não se tenha mantido até hoje, assim livrar-me-ia de atravessar alguns campos de minas, por estas ruas de Lisboa.
Adamastor era assim presa fácil para a doença apesar de carregar em seu nome a representação da força da natureza, vivia na contradição de mal conseguir sair da cama, quer dizer, passava os dias da cama para a janela, e da janela para a cama. Quando a febre lhe dava uma tréguas, ia para a janela, encostava a cabeça ao vidro baço e fechava os olhos, para se deixar embrenhar no calor dos raios de sol que chegavam à fachada do prédio, fechava os olhos e quase delirante de febre, senti ainda o perfume do carrinho do vendedor de castanhas que passava pela rua, misturado com o cheiro a sardinhas, que as varinas apregoavam de porta em porta, fechava os olhos com mais força, quase como se assim conseguisse melhor aprisionar aqueles aromas dentro da sua cabeça. E assim meio que a dormir meio que acordado, via a vida passar, debaixo dos seus olhos, esperando pacientemente a morte.
Não podia falar com ninguém não fosse ele pegar tal doença, a única pessoa que ousava tomar conta dele, era a irmã mais velha, que assumindo o cargo de matriarca, na ausência da mãe, se aventurava no quarto, improvisadamente individual, num misto de atracção e repulsa, levando-lhe a comida parca, depositando-a na beira da cama, sem nunca tirar o lenço que trazia em frente da boca, tal qual uma mordaça, não fosse ela cair na tentação de falar com o irmão que desapareci perante os seus olhos. O jovem, esse nada dizia também, em pensamentos é certo, tinha com ela conversas de horas, mas na realidade já há muito que não trocavam palavra. Voltava-se de novo para a janela, de madeira carcomida mais do que empenada pelos invernos aos quais já perdeu a conta, que nada repostava sobre os seus pensamentos, voltando a olhar a rua, distinguia as formas deambulantes pelas cores e pelos gestos, para ele só facto de ainda poder presenciar o espectáculo da rua já era motivo só por si de alegria, breve, mas de alegria, pessoas a andar em direcções opostas eram na sua cabeça verdadeiros bailarinos, em que a musica eram todos aqueles barulhos de fundo que emanam desses mesmas gentes, que passam, dirigindo-se apressadamente para os seus trabalhos.
Adamastor, admira agora tudo como se pela última vez se tratasse, e quando o movimento da rua abranda, voltava para a cama, deitando mãos à mesinha de cabeceira, onde, abria a primeira gaveta e retirava duas coisas, um a era o frasco óleo de fígado de bacalhau, e outra era a pinça de madeira que roubara do estendal em frente à sua janela, apertava a pinça contra o nariz, dando um gole da fétida mistela, adormecia lentamente, ao ritmo do seu coração, cada vez mais lento, adormecia simplesmente, à espera da morte.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Desbloquear tem técnica

Desbloquear a escrita tem técnica, tem truque, tem jeito, mas na verdade o que realmente queremos, é desbloquear as ideias, e isso é bem mais difícil. Pensar sem rede, nem sempre é fácil, pensar sem objectivo, mais difícil será, e apenas pensar, é impossível. Agir em forma de pensamento, é dar azos à recriação da mente humana, e isso, deixa-nos preguiçosos, como que amedrontados, com a sensação de não controlarmos os pensamentos seguintes. Pensar, na verdade é um acto de coragem, um acto de quem se deixa assaltar, a si, e à sua mente, por tiros de rajada, vindos de todas as partes. Pensar não é um acto linear, muito menos crescente, será um acto arrítmico, com um compasso por marcar.

Os meus pensamentos não os controlo, o discurso, esse sim é bem mais fácil, embora se cometam, diariamente erros básicos de linguagem, a minha escrita, essa, nem sequer existe, nem sequer é consistente, aliás nem sei, se sou eu verdadeiramente a falar, não sei mesmo, é certo, se quando se escreve, não serão outras vozes lá do fundo, a chegarem-se à frente, em nós, serão elas que realmente, deixam as suas vozes registadas no papel.

À que despistar a mente, para que ela entorpeça os olhos e os ouvidos, e nos deixe finalmente escrever, indo ao mais profundo dos lugares que nunca pisamos. É preciso por de lado os sentidos, perfila-los, um a um, tal qual tropas em formatura, e aos poucos, iniciar a viagem. Escrever, sem dúvida é viajar quase sempre só, embora tenhamos o poder, de criar todo o tipo de personagens, para nos fazerem companhia, nos darem a mão ou até mesmo serem elas a empurrarem-nos corredor a dentro sem piedade, construímos o que vemos, e vivemos o que construímos, erguemos muros que num vamos transpor, e aos mesmo tempo, estendemos passadeiras vermelhas para ir mais depressa, somos o que mais jeito nos der ser, parecer e até simplesmente dizer, somos o nosso próprio reflexo, escrito na folha de papel, ou somos espelho do que nunca lá se verá reflectido.

Seguimos viagem, parando apalermados em frente a qualquer caminho ou encruzilhada, há sempre a tentação de escolher o caminho mais fácil, ou o caminho mais rápido, enfim, escolher quase sempre, o caminho mais óbvio, dá jeito, ou nem tanto. Chamamos então, nessas alturas, sim, impacientes, pelos sentidos, que agora mais do que nunca, nos dão jeito, desfazemos a formatura sem complacência, pois os olhos já se mostram insuficientes, para perceber o que fazer, ou sentir a seguir. Fechando os olhos, criamos à nossa frente, o cavaleiro que se baterá por nós, e pela nossa personagem favorita, na batalha tantas vezes repetida, do confronto entre o bem e o mal, entre o concreto e o impreciso, um episódio com um final, que de tantas vezes que é escrito, já pode parar de se escrever. Usamos as armas mais à mão, para seguir caminho, e se por ventura estiverem por inventar, inventa-se à pressão a arma mais certeira e mais imprecisa, que alguma vez se virá, puxando está claro, dos galões da imaginação, e da dose que nos pareça certa, de inconsciência, para que os artefactos apareçam, à medida que são necessários. Fazemos as personagens viver, tudo aquilo que não somos capazes de viver, ou então, fazemo-las sentir tudo com mais intensidade, daquela que lhes fomos capazes de dar, nós próprios, desejando para umas, que sejam tal qual Tin Tin nas suas aventuras aos quadradinhos
, outras que se tornem, em Mafaldas e suas dúvidas, tios Patinhas e os seus planos mirabolantes, ou até mesmo que sejam como João Sem Medo, que mostrou ter a coragem de sair muito para lá dos muros da sua terra. Construímos novos mundos, para que elas riam, e se houver tempo, para que chorem também, edificamos estórias lineares, mas a meio, vem-nos à lembrança, que o pensamento bem como a vida, não é linear, e não vamos de retoques, alicerçando logo reviravoltas afortunadas, se tudo até então parecer uma desgraça, aligeiramos o discurso, procurando novos acontecimentos com piada, ou então o oposto, reviravoltas desgraçadas, que acentuem as diferenças entre os nossos sonhos de menino, e o nosso último pensamento antes da morte, fazendo pontes entre o que foi outrora o nosso propósito de viajar e tudo aquilo que ficou por fazer, por ver, por escrever. Fazemos um balanço entre a quantidade de lixo que nos assalta a memória, e as palavras que deveras registamos, nas linhas do caderno que finalmente estamos prestes a fechar. Escrevemos porque damos mais sentido ao que pensamos, vivemos, rimos e choramos, é tal como um grande disse um dia, “escrever é a arte mais próxima do pensamento.”

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Armadura de Pano

Passo por ruelas mal iluminadas, sempre repletas de nada, um nada que até perturba. Um tal nada que sempre que pode, nos salta ao caminho e nos sopra ao ouvido, quem nunca olhou pra’trás numa situação destas mente com todos os dentes que tem na boca, nega uma das sensações mais estranhas que todos nos já experimentados.
As luzes dos cândeiros da rua afastam-se cada vez mais, sinto uma dificuldade em me concentrar em algo mais do que em mim mesma, a rua que antes era ruela transformou-se em avenida, avenida essa que mais parece ser a trincheira de um vida, de um lado a vida que deixamos para trás e do outro a vida que nos espera sentada nos umbrais de uma qualquer porta que teremos de abrir.
Nos passeios, embrulhados em lixo, vejo restos das vidas dos outros, pedaços de vidas deitados fora. Pela manhã um varredor cumpre a sua tarefa de os remover. Para onde levam eles essas vísceras humanas? Para longe.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Malucos por metro quadrado

Bem, Lisboa deve ser a cidade com mais malucos por metro quadrado da Península. Parece impressionante mas a cada dia que passa a realidade supera-se a si mesma e quando penso que não pode existir mais nenhuma figurinha pitorescas à face da terra, lá vem ela, nítida e crua provar-nos que não é bem assim, que a realidade está sempre um passo em frente da recriação humana.
Entre malucos e personagens estranhas, só mesmo andando com uma câmara em riste para provar que tudo o que digo é verdade. Quem disse que ser maluco era um problema? Problema esse que até serve de mote para muitos livros, e temos de convir que matéria para isso é o que não falta prai. Esta é uma das realidades que mesmo que não dê por ela, há sempre momentos em que insiste em esbarrar connosco...não há dúvidas, andar de nariz no ar tem destes inconvinientes.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Loucura

Não consigo perceber a maioria das minhas dúvidas e se somar a elas a maioria das minhas certezas fico com uma lista à qual só posso subtrair uma possível loucura.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Lamúria

“Este Alentejo lembra-me sempre um imenso relógio de sol onde o homem faz de ponteiro do tempo.”
Miguel Torga, in Diário VIII

domingo, 30 de novembro de 2008

Pequena patranha

Bom vou dizer qualquer coisa. O que me vier à cabeça. Quanto mais banal e desenredado melhor pois ainda não perdi a esperança de arrancar um sentido qualquer deste confusão aparentemente desconexa…
O que vão ler a seguir, é mentira evidentemente mas façam de conta que acreditam, para que ao menos não fique com problemas de consciência graves, sim?
Eu, apesar da minha inclinação para a preguiça árdua dos inúteis, como não podia prescindir da escravatura do trabalho tratei de me emaranhar em constantes devaneios para aproveitar ao máximo as migalhas do tempo, sempre com papel e lápis para registar até a mais absurda das ideias súbitas que sempre insistem em chegar em forma de encontrão.
Eh! Não têm vergonha de acreditar nesta história que se está mesmo a ver que é mentira?

sábado, 20 de janeiro de 2007

Ensaio sobre o medo

Perguntei ao medo, mas o medo não respondeu, o medo não fala, não anda muito menos responde. Apenas se vai deixando estar, ocupa espaço, um grande espaço, um espaço que não devia ocupar, não lhe pertence, é um tal inquilino que nunca se consegue despejar.
O medo é um ser cobarde que não se mostra, que só ataca quando sabe que não o esperam, o medo não sabe escrever por isso não deixa recado, chega sem avisar e procura sempre não ser visto, assim ninguém o consegue enfrentar. O medo só pode ser inseguro! Por isso chama tanto a atenção, faz de tudo para controlar as pessoas, qualquer dia entra pela porta, e expulsa-nos de nós próprios. Mas o medo não tem mãos por isso não toca campainhas. Às tantas, até somos nós que abrimos a porta ao medo e ele como é educado entra, senta-se e deixa-se estar.

Mas hoje o medo não veio! De velho que esta a ficar já não sabe por que porta entrar, pobre coitado trabalha todos os dias e ninguém o vai ajudar. Com tanta conversa dou plo’medo a sorrir, por certo enganou-se, o medo por instantes esqueceu-se que era medo e riu, e chorou e lá ficou. Queria passar a mão pela cabeça do medo, mas reconfortar o medo não é a mesma coisa do que trata-lo a ponta pé, mais vale não fazer nada, e esperar que o medo se acalme.
Há aí alguém que queira substituir este medo, este assim já não vai lá! Surpreende-me a cara do medo, sempre o vemos como um jovem robusto cheio de força capaz de levar as pessoas ao pânico, mas não, enganei-me não passa de um velho condenado a ser velho para sempre, e sempre é uma palavra definitiva, este medo está acabado tem uma morte anunciada.
Que disse eu então ao medo? Pede ajuda aos correios, assim nunca mais te enganas nas moradas, ou melhor, faz como o pai natal que só trabalha uma noite por ano e ninguém reclama, decreta um dia internacional para o medo! Ups, oh não! O medo zangou-se está irritado, percebeu que tenho estado a gozar com ele e até franziu a sobrancelha, mas depois saiu, como que envergonhado…
Faz-se um silêncio na sala, não é preciso acender a luz porque o sol já vai alto, dou por mim a respirar as ditas treze vezes por minuto como se de uma regra matemática se trata-se, mas ela há coisas, quem é que um dia se lembrou de fazer uma media, para determinar quantas vezes respiramos por minuto, afinal o que não falta prai é gente sem ter nada pra’fazer. Vá lá, não sou a única…

Voltei a perguntar ao medo, como íntimos que agora somos, talvez agora me responda, mas o medo tinha saído, tinha trabalho para fazer, tinha e tem, pobre coitado que nunca o hás-de dar por acabado. Voltei a ficar sem resposta, mas a minha resposta já eu sei, sempre soube, sou eu que insisto em segurar a mão ao medo e que o deixa ficar toda a noite a meu lado…o medo esse…nem sabe quem sou.

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

O rei vai nu

Não vemos nada de transcendental que faça do design algo de tão sublime, como o querem pintar às vezes, a não ser, por à prova a criatividade humana. Quanto mais pragmático o quiserem tornar, menos interesse ele terá.
“Mas ele há coisas”, é verdade ou não que uma das histórias que se repete mais na vida é a história do “rei vai nu”, toda a gente está de acordo com tudo até haver alguém que diz o contrário, e então volta tudo ao mesmo, é a um ciclo vicioso onde ninguém parece pensar com a sua própria cabeça. É ou não a vida um constante jogo de interesses e de seduções “inocentes”, boas intenções é certo! (Mas de boas intenções está o inferno cheio.) Poderíamos pintar tudo de cor de rosa, mas o que se passa na realidade é que o design é uma das profissões egoísta, e trabalha tanto em função do seu ego que se esquece que também tem um papel para desempenhar, e esse papel é o papel social, o comunicar coisas com interesse e com pertinência, inovando sempre proactivamente.
É verdade que se lê em todo o lado, que o design trabalha para os outros e em função deles, mas talvez a realidade não seja bem essa que vem nos livros, quem escreve sabe porque escreve, mas nem sempre quem lê interpreta da mesma forma, e a forma como agimos tem muito a ver com a forma como pensamos, e essa sim só pode ser avaliada consoante os estímulos externos, embora nem sempre se estabeleça esta causa efeito.