sábado, 20 de janeiro de 2007

Ensaio sobre o medo

Perguntei ao medo, mas o medo não respondeu, o medo não fala, não anda muito menos responde. Apenas se vai deixando estar, ocupa espaço, um grande espaço, um espaço que não devia ocupar, não lhe pertence, é um tal inquilino que nunca se consegue despejar.
O medo é um ser cobarde que não se mostra, que só ataca quando sabe que não o esperam, o medo não sabe escrever por isso não deixa recado, chega sem avisar e procura sempre não ser visto, assim ninguém o consegue enfrentar. O medo só pode ser inseguro! Por isso chama tanto a atenção, faz de tudo para controlar as pessoas, qualquer dia entra pela porta, e expulsa-nos de nós próprios. Mas o medo não tem mãos por isso não toca campainhas. Às tantas, até somos nós que abrimos a porta ao medo e ele como é educado entra, senta-se e deixa-se estar.

Mas hoje o medo não veio! De velho que esta a ficar já não sabe por que porta entrar, pobre coitado trabalha todos os dias e ninguém o vai ajudar. Com tanta conversa dou plo’medo a sorrir, por certo enganou-se, o medo por instantes esqueceu-se que era medo e riu, e chorou e lá ficou. Queria passar a mão pela cabeça do medo, mas reconfortar o medo não é a mesma coisa do que trata-lo a ponta pé, mais vale não fazer nada, e esperar que o medo se acalme.
Há aí alguém que queira substituir este medo, este assim já não vai lá! Surpreende-me a cara do medo, sempre o vemos como um jovem robusto cheio de força capaz de levar as pessoas ao pânico, mas não, enganei-me não passa de um velho condenado a ser velho para sempre, e sempre é uma palavra definitiva, este medo está acabado tem uma morte anunciada.
Que disse eu então ao medo? Pede ajuda aos correios, assim nunca mais te enganas nas moradas, ou melhor, faz como o pai natal que só trabalha uma noite por ano e ninguém reclama, decreta um dia internacional para o medo! Ups, oh não! O medo zangou-se está irritado, percebeu que tenho estado a gozar com ele e até franziu a sobrancelha, mas depois saiu, como que envergonhado…
Faz-se um silêncio na sala, não é preciso acender a luz porque o sol já vai alto, dou por mim a respirar as ditas treze vezes por minuto como se de uma regra matemática se trata-se, mas ela há coisas, quem é que um dia se lembrou de fazer uma media, para determinar quantas vezes respiramos por minuto, afinal o que não falta prai é gente sem ter nada pra’fazer. Vá lá, não sou a única…

Voltei a perguntar ao medo, como íntimos que agora somos, talvez agora me responda, mas o medo tinha saído, tinha trabalho para fazer, tinha e tem, pobre coitado que nunca o hás-de dar por acabado. Voltei a ficar sem resposta, mas a minha resposta já eu sei, sempre soube, sou eu que insisto em segurar a mão ao medo e que o deixa ficar toda a noite a meu lado…o medo esse…nem sabe quem sou.

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