Ancorada
Agulha e linha
Tenho um amor ancorado
E sinto a alma deserta
Na presença discreta
Do sorriso perdido
Num dia de sombra
Destas certezas volvido
Esta alma que chora
Por pouco saber que chora
Tenho a alma ancorada
De amarras perdidas
Por não sentir a calma das tristezas vencidas
Nessa margem distante
Que é este amor errante
Beijo os dias que escorrem
Nesse pedaço de carne
Que rasgada, à deriva
Vai apodrecer fora de mim
Pelas mil marés deste dia
Conto com o optimismo do mundo
Para sair deste fundo
Tenho este segredo prescrito
Num livro maldito
Que a tua ausência rasgou
Sou a tristeza com corpo
De alma encantada
Pela tua ausência velada
Que mais ninguém arrancou
Tenho certeza nas horas
Ao acalentar que não demoras
Aconchegada que está a raiva entre dentes
Por não deixar de sentir
Sinto a falta desse pedaço que é meu
Que a tua vontade perdeu
Perdida que está a vida
Tenho o passado presente, e o futuro vencido
Contada e velada que está esta estória
Leva para longe este meu enlevo
Que a vida essa
Depressa se apressa
A fechar caminhos,
Levando-nos para o esquecimento.
Amanhã ninguém se lembrará que existi.
E sinto a alma deserta
Na presença discreta
Do sorriso perdido
Num dia de sombra
Destas certezas volvido
Esta alma que chora
Por pouco saber que chora
Tenho a alma ancorada
De amarras perdidas
Por não sentir a calma das tristezas vencidas
Nessa margem distante
Que é este amor errante
Beijo os dias que escorrem
Nesse pedaço de carne
Que rasgada, à deriva
Vai apodrecer fora de mim
Pelas mil marés deste dia
Conto com o optimismo do mundo
Para sair deste fundo
Tenho este segredo prescrito
Num livro maldito
Que a tua ausência rasgou
Sou a tristeza com corpo
De alma encantada
Pela tua ausência velada
Que mais ninguém arrancou
Tenho certeza nas horas
Ao acalentar que não demoras
Aconchegada que está a raiva entre dentes
Por não deixar de sentir
Sinto a falta desse pedaço que é meu
Que a tua vontade perdeu
Perdida que está a vida
Tenho o passado presente, e o futuro vencido
Contada e velada que está esta estória
Leva para longe este meu enlevo
Que a vida essa
Depressa se apressa
A fechar caminhos,
Levando-nos para o esquecimento.
Amanhã ninguém se lembrará que existi.
Agulha e linha
Tinha livros plantados em vasos
Como se o regar das nuvens cosidas com linhas
Fizesse efeito pela chegada das andorinhas
Ouviam-se tempestades de risos
Que brotavam do silêncio do chão
Verdadeiros cânticos imprecisos
Dos quais, talvez faça parte um caixão
A madeira rangia, e a costureira cosia
E aquela mulher que tudo cerzia
Bordava um céu com gotas de chuva
Ficava tudo, que nem uma luva
De modo paciente, ajeitava o dedal
Mudava de cor, e costurava um estendal
Desenhava o mundo, a seu belo prazer
Tratava tudo, como deve ser
Não conhecia ninguém, mas também pouco importa
Já que nunca se aventurou pela porta
Tinha livros plantados em vasos
E guardava as flores, na prateleira
Regava os livros, e tirava o pó às flores
Vivia assim, os seus poucos amores
De parede em parede, o seu desejo plasmado
Ela tratava de tudo, com tanto cuidado
Mas algo de errado havia,
Em tudo quanto fazia
A noite, não vinha
Talvez porque, preto não tinha
E tão só de negro se veste a noite
Nem mesmo com o bater da meia-noite
Sonhava assim com o olhos abertos
Ocupava o tempo, de sentidos despertos
Rodeada pelo seu mundo de algodão
Que a fazia sair da sua própria solidão.
Sem nome
Despregada vós que me sai a contento
Refero-me a ti, como alegoria
Aos poucos descubro que o meu peito tingias
Com aquele timbre de vós que me trazias
Que aos invés de me dar o sustento
Pouco mais valia do que um cento
É certo que no meu peito já jazias
São coisas da vida, cobardias.
Nesta minha mente, que mais parece uma aldeia
Aqui, nesta tarde que me rodeia.
Tua voz, que já não me conforta
No meu olhar entardecido espelhado
Tenho a tristeza em duplicado
Cada vez que sinto que já nada importa.
Poema ao sol
Raios de sol desejosos
Quentes como brasas cor celeste
Todavia recebidas, sem boas-vindas
Preenchem até a mais leve réstia de esperança
Ocupam a maior e a menor das medidas
Raios que afagam, mas que também trespassam
Desenhando sombras a seu belo prazer
Marcam no chão até a mais singela das formas
Só o sol ordena toda a sombra das nossas vidas
Só ele suga, só ele repele
Só ele se destingue com tamanho poder
O poder, das coisas simples
Vagarosamente esperadas
Tão pouco diligentes, que nem são notadas
Quem comandará este império de poderes?
De onde virá esta força física?
Estratégias riscadas em papel e lápis
De um Deus desenhado à pressa por outro
Que entediado, lançou sobre o mundo
O dia, e a noite
A vida, e a morte
O sul e o norte
E se sentou como charneira
Apressadamente a rabiscar vidas
Sem cor, nem sorte
Quadro
Pinturas sem gota de tinta
Quadros riscados com olhares
Que mesmo que ninguém um dia os sinta
Estão curvados de tanto peso
Tanta responsabilidade não repartida
Erguidos muros de tela em campos de batalha
Com tropas de pincéis perfilados
Sorrisos invertidos
Rios de tinta invisível
Que não se agarra ao papel...
Mil cores resumidas em uma só
A cor dos que temem
A cor dos que quebram
E baixam o olhar ao dar de caras com a vida
Cumplicidades destes tempos...
Poesias imperfeitas, quadros imperfeitos
Desejos esfumados a dedo de peliça
Embrulhados em pano cru ávido de sentido
Com pedaços de estórias sem mundo
Consolo dos que regelaram de medo
Assobiar no escuro
Neste dia presente em que não vejo sentido
O vento agita o meu tronco
E nele enraizado e oco
Deixo o meu mundo contido
Guardo com mil gestos delicados
As lágrimas que choro como um segredo
De tantos momentos calados
Em que o vento assobia para enxotar o medo
Noites de verdadeira candura
Em que até a escuridão do vazio carpia
Muito antes, o grito que não espera altura
Clamava por um coração que já pouco batia
Papões de estórias infantis
Que me assaltam tipo encontrão
Fecho os olhos para esquecer os hostis
Dos meus ais já não me lembro a razão.
Uma casa cheia de máquinas de costura
Hoje, nem rápidas nem lentas
Frias jazem a um canto
Locomotoras de gerações esquecidas
Rápida e imóvel a tua morte a despeito
Daqueles que outrora te faziam soar a repique
Pelos metros e metros que teceste
Agulhas velozes de ferro pungente
Fechavam a rasgada carne da saudade a despique
Tu que para sempre enredaste os corpos cheios de calo
Nunca a teus filhos atávicos negaste um embalo
Tu que perfuraste o regaço daqueles que acalentas
Hoje, para nada mais serves do que para armazenar pó
Nem o teu carrasco se aventurou a cortar o teu cepo
Pois a ferrugem dos teus braços é desculpa que baste, para a preguiça
daqueles que já nem o olhar levantas.
Despregada vós que me sai a contento
Refero-me a ti, como alegoria
Aos poucos descubro que o meu peito tingias
Com aquele timbre de vós que me trazias
Que aos invés de me dar o sustento
Pouco mais valia do que um cento
É certo que no meu peito já jazias
São coisas da vida, cobardias.
Nesta minha mente, que mais parece uma aldeia
Aqui, nesta tarde que me rodeia.
Tua voz, que já não me conforta
No meu olhar entardecido espelhado
Tenho a tristeza em duplicado
Cada vez que sinto que já nada importa.
Poema ao sol
Raios de sol desejosos
Quentes como brasas cor celeste
Todavia recebidas, sem boas-vindas
Preenchem até a mais leve réstia de esperança
Ocupam a maior e a menor das medidas
Raios que afagam, mas que também trespassam
Desenhando sombras a seu belo prazer
Marcam no chão até a mais singela das formas
Só o sol ordena toda a sombra das nossas vidas
Só ele suga, só ele repele
Só ele se destingue com tamanho poder
O poder, das coisas simples
Vagarosamente esperadas
Tão pouco diligentes, que nem são notadas
Quem comandará este império de poderes?
De onde virá esta força física?
Estratégias riscadas em papel e lápis
De um Deus desenhado à pressa por outro
Que entediado, lançou sobre o mundo
O dia, e a noite
A vida, e a morte
O sul e o norte
E se sentou como charneira
Apressadamente a rabiscar vidas
Sem cor, nem sorte
Quadro
Pinturas sem gota de tinta
Quadros riscados com olhares
Que mesmo que ninguém um dia os sinta
Estão curvados de tanto peso
Tanta responsabilidade não repartida
Erguidos muros de tela em campos de batalha
Com tropas de pincéis perfilados
Sorrisos invertidos
Rios de tinta invisível
Que não se agarra ao papel...
Mil cores resumidas em uma só
A cor dos que temem
A cor dos que quebram
E baixam o olhar ao dar de caras com a vida
Cumplicidades destes tempos...
Poesias imperfeitas, quadros imperfeitos
Desejos esfumados a dedo de peliça
Embrulhados em pano cru ávido de sentido
Com pedaços de estórias sem mundo
Consolo dos que regelaram de medo
Assobiar no escuro
Neste dia presente em que não vejo sentido
O vento agita o meu tronco
E nele enraizado e oco
Deixo o meu mundo contido
Guardo com mil gestos delicados
As lágrimas que choro como um segredo
De tantos momentos calados
Em que o vento assobia para enxotar o medo
Noites de verdadeira candura
Em que até a escuridão do vazio carpia
Muito antes, o grito que não espera altura
Clamava por um coração que já pouco batia
Papões de estórias infantis
Que me assaltam tipo encontrão
Fecho os olhos para esquecer os hostis
Dos meus ais já não me lembro a razão.
Uma casa cheia de máquinas de costura
Hoje, nem rápidas nem lentas
Frias jazem a um canto
Locomotoras de gerações esquecidas
Rápida e imóvel a tua morte a despeito
Daqueles que outrora te faziam soar a repique
Pelos metros e metros que teceste
Agulhas velozes de ferro pungente
Fechavam a rasgada carne da saudade a despique
Tu que para sempre enredaste os corpos cheios de calo
Nunca a teus filhos atávicos negaste um embalo
Tu que perfuraste o regaço daqueles que acalentas
Hoje, para nada mais serves do que para armazenar pó
Nem o teu carrasco se aventurou a cortar o teu cepo
Pois a ferrugem dos teus braços é desculpa que baste, para a preguiça
daqueles que já nem o olhar levantas.

