domingo, 13 de fevereiro de 2011

O que poderia ser isto?

A madrugada. O momento em que as massas descançam, o momento em que os corpos sucumbem ao repouso apaziguador das suas carnes. O instante em que os corpos esbatem as guardas de honra, dos seus portões da mente e adentramos num frenesim de memórias, ou meras projecções desconexas, em forma de objectos e de gentes em que a noite predomina e os planos se sobrepõem como numa película de filme, cuja cor já gasta, acusa uso indiscriminado.
Nesse instante, em que o contrabalanço dos dois pratos da balança, que ora pende para um lado, ora pende para o outro, discai de vez para o lado onírico, esse lado desactivado da razão.

A mente. Aquele grande pedaço de nós, que tem vontades próprias, e que se desprende com uma facilidade imensa da nossa pele, sempre que adormecemos, é como se a força da gravidade que nos puxa infinitamente para baixo, não tivesse forças tamanhas para segurar o pensamento dentro da nossa morada, e por isso ele corre livre e sem necessidade de pontes, salta entre margens, esticando a mão e tocando no fundo das coisas.
Qualquer massa exerce forças sobre as restantes, num jogo de poder que alguém institui-o dando ordens para que tudo, para lá das varandas dos nossos olhos, girasse em torno de eixos assimétricos que alguém aglutinou dando forças às massas, para depois se esquecer da fórmula, transformando essa aproximação entre os seres, numa queda constante.

A gravitação. Seremos nós planetas em órbitas por delinear? Seremos cada um de nós meros corpos celestes em agitação constante, que só conhecemos o nosso astro singular ao cair do pano.
Somos ou não planetas, indistintos de todo o resto? Seremos até capazes de permanecer eternamente na nossa curva em volta do sol, mesmo que as vezes nos apeteça apanhar boleia das rotas dos outros.
Serão tantas as órbitas paralelas em volta minha que nem dou conta da sua presença. O ser humano continua a ter esta grande capacidade inútil de alcançar o óbvio, por isso só reparamos no outro, quando entramos em rota de colisão, só vemos o outro quando ele está à nossa frente.
Parece ser o universo o maior responsável pela atracção e repulsa dos corpos, pela escolha das órbitas e dos seus desvios do dia-a-dia, até quando alteramos o nosso percurso para o trabalho, indo por outra rua que não a de sempre, puxados por uma força que nos atrai, estamos expostos ao que o universo nos reservar, quem sabe, se com um simples mudar de rua não dá-mos de caras com um novo pedaço de vida, essa pequena pista que nos vai levar ao que nos toca viver a seguir.
É ele que dita a hora, o minuto e o preciso instante em que tudo muda, em que os corpos atraídos pelas suas massas se aproximam de uns e se afastam de outros irreparavelmente, por mais próximos que já possamos ter estado, por mais que os olhares se tenham cruzado, por mais que a vida os tenha colocado no mesmo lugar, apenas nesse instante, cozinhado em lume brando à muito pelo universo, essa presença fará sentido. É ele o verdadeiro maestro, que orquestra todas as notas musicais que somos, para que as massas ecoem finalmente em uníssono.

O corpo e o tempo. Como planetas que somos, de orbitas irrepetíveis, precisamos de bem mais de 365 dias, para completar a nossa curva em volta do sol. Orbitamos em volta desse grande astro que é o tempo, o tempo, essa grande deriva dos objectos, que tudo baliza, que tudo delimita por ser a única estação constante que nos acompanha ao longo da curva em volta do sol. O comboio, esse pode parar a qualquer momento, quer tenham passado 5, 22, 35, 58, 80 ou 95 anos de órbita, quer seja por capricho, obstáculos na via, ou caris enferrujados, o tempo esse, que tudo encaixa, é a constante que nos gera e nos elimina, e no entanto...se o tempo deixasse de existir tudo seria imagem, todo o universo viveria num eterno congelamento, tudo seria emoldurável, permanente, duradouro e constante como até agora só o tempo o podia ser, nenhum fruto mudaria de cor, nenhuma semente podia geminar, nenhuma folha caía ao chão, nunca a pele envelheceria. A chuva deixaria de cair no chão, ficava suspensa eternamente no céu, as órbitas paravam e o sol deixava de exercer força sobre nós, deixaríamos de estar constantemente em queda para passar a estar constantemente suspensos, como a chuva que nunca alcança a terra por não saber cair.

O universo. Viveria uma eternidade à espera que as órbitas retomassem o seu curso, para poder intervir nas nossas vidas, só ecoariam orquestras de silêncio, por nada poder mudar de sítio.

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