Para quem anda a pé pelas ruas menos suspeitas da cidade, seria de prever, que a repetição dos dias, e as sucessivas viagens pelos mesmos lugares, fizessem com que eles se tornassem especiais. Nada mais longe da verdade, portanto, se bem me lembro, e em prol da verdade, quantas mais vezes passamos por um sitio, menos o fitamos na realidade, mais vago se torna, tudo aquilo que os nossos sentidos alcançam. Deixamos de percepcionar as partes, fixando-nos apenas no todo, que garanto-vos, não ser o bastante para fazer uma descrição credível, por isso na nossa condição de criaturas preguiçosos, temos o poder para transformar os espaços, porque na realidade deixa-mos de os ver, pura e simplesmente, limitando-nos a accionar cá dentro o botão mágico, com a placa de metal em cima que tem escrito, Piloto Automático, em letras bem grandes, caso existam mentes mais míopes do que a minha, e para que não se corra o risco de não conseguir ler.
Por isso atalhamos caminho, e seguimos pelas ruas mais desertas, sem ter que nos preocupar com semáforos constantemente avermelhados a rirem-se para nós, seguimos em marcha apreçada, ziguezagueando, ora em redor de buracos no passeio, renovados a cada manhã, ora por postes de iluminação, que sempre lá estiveram, mas com os quais em certo dia teremos um encontro inesperado, carros a apitar, porque alguém a dada altura se esquece que naquela rua também passam carros de meia em meia hora, calçada portuguesa resvaladiça com altos e baixos por remediar, gente parada, a ganhar fôlego, no meio do passeio estreito, carregadas com sacos de compras, que pouco ou nada distam do chão.
Avançamos tacteando com os pés, com a música bem dentro dos ouvidos, como se a nossa vida por momentos tivesse direito a banda sonora, chegamos ou final da rua número sete, mesmo antes de nos prepararmos para subir, virando à direita no prédio amarelo, pintado de fresco, onde antes os andaimes de ferro se alongavam no céu, num perpetuar de ferros aguçados a querer rasgar as nuvens, uma senhora, por momentos saída de meados do século passado, tão pequena e tão antiga, chega à varanda, onde antes eu só entrevia uma nespereira, inesperadamente oprimida entre o betão, de um lado amarelo, pintado de fresco, do outro verde, existe um pátio ínfimo com gente dentro, e num primeiro olhar não diria ter mais de 10m2, nunca vira lá ninguém até então, a senhora abriu o portão, e deixando-se ver disse:
-Que dia é hoje, menina? É quinta?
Eu aturdida, por aquele ser antigo ainda falar, respondo:
-É terça!
A senhora agradece, mas volta a perguntar o mesmo a alguém que segue depois de mim, e depois e depois. É como se tivesse memória de peixe e a informação não ecoasse mais de três segundo dentro do seu cérebro, acho que foi a única vez que fiquei especada a olhar para trás naquela rua, aliás tenho a certeza, como que à procura de uma explicação que desse sentido ao que os meus ouvidos e olhos acabavam de assistir. No dia seguinte lá estava ela, pronta a fazer a mesma pergunta a que quer que seja que por ali passasse, e eu já com a resposta na ponta da língua, esperei que voltasse a perguntar e respondi:
-É quarta-feira senhora. - desta vez sigo sem olhar para trás, mas todos os dias vêm-me à cabeça teorias novas. Até já cheguei a pensar se a senhora teria acordado de um coma profundo, estivesse à muito sozinha em casa, não conhece-se nada, nem ninguém, teria ale acordado de um coma, de muitos anos, ou hibernado tempo demais, dentro do seu cubículo térreo sem janelas, e acordado rodeada de prédios altos sem saber que dia era. Isso ou fria e, sensatamente pensando, a solidão, essa morte lenta que desacelera a vida, que apaga a memoria dos novos, e dos velhos, com uma borracha cobarde, que desliga tudo ao seu passar.

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