quinta-feira, 31 de março de 2011

Homem imperfeito



Os pássaros voavam no céu, como se voassem de júbilo pela chegada da Primavera, voavam neuróticos desenhando linhas rasgadas de negro, no azul, mais azul, do Inverno herdado pela Primavera. Está deitado no muro olhando o céu com os ouvidos, o velho Orpheu desafiava as alturas fechando os olhos, para melhor sentir a chegada dos raios de sol quente, que lhe desvelavam verdadeiros mapas de estradas rugosas na pele dura do seu rosto velho, como só um rosto de setenta e muitos anos pode ter. De vez em quando, sem nunca abrir os olhos, entretinha-se a contar as nuvens que passavam e lhe filtravam a luz alaranjada nos seus olhos fechados.
Repousava singular com a sua pele queimada e cravada pelo tempo, sobre a brancura da cal do muro, alto, pintado, ano sim ano não, pelas mulheres do monte. A cal ondulante com mais de mil camadas, reflectia a luz e o calor aquecendo, as peles, as carnes e os ossos do velho Orpheu, que se deleitava com os aromas das laranjeiras e videiras que do alto do muro se fundiam e repartiam para ambos os lados. Com os olhos fechados dividia o tempo em números contados em forma de nuvem, em silêncio, mas num silêncio diferente, ele, como se nada mais o preenchesse inspirava profundamente os aromas doces, que o deixavam cada vez mais embriagado. Quando, meio que acordado, abriu um olho, depois outro, como que para garantir que era seguro, e que a luz não o cegaria, rodou a cabeça na direcção do monte sem telhado e atirou os olhos no rasgado deserto verdejante, onde nem viva’alma o preenchia. Nessa altura, um bando de pássaros atravessa-se no seu olhar perdido, um pássaro, faz um voo rasante na sua direcção, planando como se o tempo parasse, justamente por cima do corpo ainda deitado no muro, do velho Orpheu, e diz:
- Aqui até o vento sabe aquilo que se passou…Se ao menos fizesse algum sentido!
e a voz, que nada mais disse, ecoou repetidamente sete vezes na imensidão da planície. Orpheu, sem dizer mais nada, num gesto de ira, e como se os seus braços por momentos ganhassem a força e a rapidez dos seus vinte anos, lançou a sua mão direita despedida na direcção do bicho. Com a sua mão escura, de dedos largos e gordos, agarrou impetuosamente o pássaro, apertando cada um dos seus dedos de encontro à palma da mão, fazendo-se ouvir um abafado ranger de ossos miudinhos.
O silêncio dilatou-se, preenchendo cada espaço. Orpheu cai em seguida, desamparado no chão, sem nunca abrir a mão direita que aperta com todas as suas forças, caído no chão, já com os seus setenta e muitos anos, sente cada pedaço do seu corpo desacelerar bruscamente na terra, que por sorte ainda macia dos dias de chuva, o recebe sem grandes estragos. Por momentos perde a noção do tempo, deixando-se estar caído no chão durante largos minutos em que fica desacordado. Ao acordar, quase que instintivamente procura a sua mão direita repousada ao longo do tronco, e ainda fechada, coloca-a frente à cara, e na qual sentia um leve formigueiro, começa a abrir a mão lentamente, acredito que com medo, do que vai encontrar.
-Onde pensavas tu que ias? - grita o velho enraivecido - Mas, que se passa, que diabos!
e nada, nem sombras de pássaros, ao abrir a mão berrou com voz de quem manda, mas não encontrou nada, nem sinal de bicho nenhum.
-Nada! - Sacode a roupa da terra vermelha e levanta-se, de uma assentada eliminando os vestígios do seu delírio. Começa a andar, ainda encurvado da queda, cambaleante segue como quem carrega um fardo às costas, um fardo muito maior do que as suas forças, segue pé ante pé, em direcção ao monte. Caminha lentamente, perseguido pelo sua própria sombra, que do andar das horas já lhe faz alongar a figura. O entardecer aproxima-se, aquela hora em que os corpos são deixados à sua mercê. Percorrendo o chão, que outrora deu uvas, calca os sapatos na terra macia deixando um rasto para cada passo. Inelutável caminha lentamente em direcção ao monte. Quanto mais anda, mais sente que o monte cresce, perante os seus olhos envelhecidos, naquele preciso instante em que crava os joelhos em terra, como que a dizer:
-Desisto! - olha as suas mãos, e os seus dedos embrutecidos, de homem imperfeito profusamente só. Não se reconhecendo, primeiro, ouve vozes de crianças a correr de lado para lado, a brincar em volta do poço do monte junto à casa ainda com telhado, depois levanta-se em direcção à porta de madeira da casa. Leva a mão à porta e com um simples empurrar dá de caras com uma mulher estendida no chão da cozinha, uma mulher envolta em sangue que agoniza de olhos bem abertos pedindo ajuda com dois tiros de caçadeira no peito. Orpheu volta a olhar as mãos, e fica aterrado quando vê que sobre elas está uma arma ainda quente, num soluçar de choro irrompe porta fora, matando os seus dois filhos, que depois carrega até junto do poço, sem água do monte, e os deixa cair eternamente na sua saudade, faz o mesmo com a mulher que ainda geme tentando dizer uma última palavra, mas com a boca invadida pelo sangue, e ao colo do seu marido que a lança para dentro do poço apenas com os olhos consegue, esboçar um - "Porquê?" Depois apenas silêncio, mas um silêncio diferente, um eco de saudade, que lhe acertava, puxando-o também para dentro do poço.

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