domingo, 30 de janeiro de 2011

Adamastor - PARTE I

Corria o ano de 1902, corria não, andava, o país vivia envolto em pobreza, todos aqueles que não gozavam da graça de ter nascido em seios de famílias fidalgas, viviam à sorte. A miséria, dos seus pés descalços delatava os seus corpos frágeis e bem magros, por baixo das vestes gastas, sempre vários números acima do que seria recomendado. Mas naquele tempo era assim.
Alcântara era viva prova disso, à época, as pessoas sobreviviam amontoadas como caixotes, o jovem Adamastor era apenas mais um, que com suas formas esguias povoava estas paragens, era um jovem humilde de família farta, que cedo começou a trabalhar, primeiro numa fábrica de conservas e mais tarde na fábrica da pólvora. A mesma sorte que muitos jovens à época.
Penso: ter sido por estas alturas que em Lisboa corriam rumores de um surto de tuberculose, a acumulação de gentes, a alimentação mais do que precária, a pouca ventilação dos locais de trabalho aliada à escassa higiene individual, formavam o forno ideal para a proliferação de uma doença que viria a dizimar gente a fornadas, não de bolos, mas de morto, entenda-se.
A população pouco ou nada sabia sobre a doença, o governo, esse, nesse ano só se lhe conhece uma medida digna de realça, que foi o ter assinado um edital em que se proibia o velho hábito português de “escarrar ou cuspir fora dos escarradores próprios sob pena de 500 reis de multa”, e é pena que esta medida não se tenha mantido até hoje, assim livrar-me-ia de atravessar alguns campos de minas, por estas ruas de Lisboa.
Adamastor era assim presa fácil para a doença apesar de carregar em seu nome a representação da força da natureza, vivia na contradição de mal conseguir sair da cama, quer dizer, passava os dias da cama para a janela, e da janela para a cama. Quando a febre lhe dava uma tréguas, ia para a janela, encostava a cabeça ao vidro baço e fechava os olhos, para se deixar embrenhar no calor dos raios de sol que chegavam à fachada do prédio, fechava os olhos e quase delirante de febre, senti ainda o perfume do carrinho do vendedor de castanhas que passava pela rua, misturado com o cheiro a sardinhas, que as varinas apregoavam de porta em porta, fechava os olhos com mais força, quase como se assim conseguisse melhor aprisionar aqueles aromas dentro da sua cabeça. E assim meio que a dormir meio que acordado, via a vida passar, debaixo dos seus olhos, esperando pacientemente a morte.
Não podia falar com ninguém não fosse ele pegar tal doença, a única pessoa que ousava tomar conta dele, era a irmã mais velha, que assumindo o cargo de matriarca, na ausência da mãe, se aventurava no quarto, improvisadamente individual, num misto de atracção e repulsa, levando-lhe a comida parca, depositando-a na beira da cama, sem nunca tirar o lenço que trazia em frente da boca, tal qual uma mordaça, não fosse ela cair na tentação de falar com o irmão que desapareci perante os seus olhos. O jovem, esse nada dizia também, em pensamentos é certo, tinha com ela conversas de horas, mas na realidade já há muito que não trocavam palavra. Voltava-se de novo para a janela, de madeira carcomida mais do que empenada pelos invernos aos quais já perdeu a conta, que nada repostava sobre os seus pensamentos, voltando a olhar a rua, distinguia as formas deambulantes pelas cores e pelos gestos, para ele só facto de ainda poder presenciar o espectáculo da rua já era motivo só por si de alegria, breve, mas de alegria, pessoas a andar em direcções opostas eram na sua cabeça verdadeiros bailarinos, em que a musica eram todos aqueles barulhos de fundo que emanam desses mesmas gentes, que passam, dirigindo-se apressadamente para os seus trabalhos.
Adamastor, admira agora tudo como se pela última vez se tratasse, e quando o movimento da rua abranda, voltava para a cama, deitando mãos à mesinha de cabeceira, onde, abria a primeira gaveta e retirava duas coisas, um a era o frasco óleo de fígado de bacalhau, e outra era a pinça de madeira que roubara do estendal em frente à sua janela, apertava a pinça contra o nariz, dando um gole da fétida mistela, adormecia lentamente, ao ritmo do seu coração, cada vez mais lento, adormecia simplesmente, à espera da morte.

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