sábado, 19 de fevereiro de 2011

Atalhar caminho



Para quem anda a pé pelas ruas menos suspeitas da cidade, seria de prever, que a repetição dos dias, e as sucessivas viagens pelos mesmos lugares, fizessem com que eles se tornassem especiais. Nada mais longe da verdade, portanto, se bem me lembro, e em prol da verdade, quantas mais vezes passamos por um sitio, menos o fitamos na realidade, mais vago se torna, tudo aquilo que os nossos sentidos alcançam. Deixamos de percepcionar as partes, fixando-nos apenas no todo, que garanto-vos, não ser o bastante para fazer uma descrição credível, por isso na nossa condição de criaturas preguiçosos, temos o poder para transformar os espaços, porque na realidade deixa-mos de os ver, pura e simplesmente, limitando-nos a accionar cá dentro o botão mágico, com a placa de metal em cima que tem escrito, Piloto Automático, em letras bem grandes, caso existam mentes mais míopes do que a minha, e para que não se corra o risco de não conseguir ler.

Por isso atalhamos caminho, e seguimos pelas ruas mais desertas, sem ter que nos preocupar com semáforos constantemente avermelhados a rirem-se para nós, seguimos em marcha apreçada, ziguezagueando, ora em redor de buracos no passeio, renovados a cada manhã, ora por postes de iluminação, que sempre lá estiveram, mas com os quais em certo dia teremos um encontro inesperado, carros a apitar, porque alguém a dada altura se esquece que naquela rua também passam carros de meia em meia hora, calçada portuguesa resvaladiça com altos e baixos por remediar, gente parada, a ganhar fôlego, no meio do passeio estreito, carregadas com sacos de compras, que pouco ou nada distam do chão.

Avançamos tacteando com os pés, com a música bem dentro dos ouvidos, como se a nossa vida por momentos tivesse direito a banda sonora, chegamos ou final da rua número sete, mesmo antes de nos prepararmos para subir, virando à direita no prédio amarelo, pintado de fresco, onde antes os andaimes de ferro se alongavam no céu, num perpetuar de ferros aguçados a querer rasgar as nuvens, uma senhora, por momentos saída de meados do século passado, tão pequena e tão antiga, chega à varanda, onde antes eu só entrevia uma nespereira, inesperadamente oprimida entre o betão, de um lado amarelo, pintado de fresco, do outro verde, existe um pátio ínfimo com gente dentro, e num primeiro olhar não diria ter mais de 10m2, nunca vira lá ninguém até então, a senhora abriu o portão, e deixando-se ver disse:
-Que dia é hoje, menina? É quinta?
Eu aturdida, por aquele ser antigo ainda falar, respondo:
-É terça!
A senhora agradece, mas volta a perguntar o mesmo a alguém que segue depois de mim, e depois e depois. É como se tivesse memória de peixe e a informação não ecoasse mais de três segundo dentro do seu cérebro, acho que foi a única vez que fiquei especada a olhar para trás naquela rua, aliás tenho a certeza, como que à procura de uma explicação que desse sentido ao que os meus ouvidos e olhos acabavam de assistir. No dia seguinte lá estava ela, pronta a fazer a mesma pergunta a que quer que seja que por ali passasse, e eu já com a resposta na ponta da língua, esperei que voltasse a perguntar e respondi:
-É quarta-feira senhora. - desta vez sigo sem olhar para trás, mas todos os dias vêm-me à cabeça teorias novas. Até já cheguei a pensar se a senhora teria acordado de um coma profundo, estivesse à muito sozinha em casa, não conhece-se nada, nem ninguém, teria ale acordado de um coma, de muitos anos, ou hibernado tempo demais, dentro do seu cubículo térreo sem janelas, e acordado rodeada de prédios altos sem saber que dia era. Isso ou fria e, sensatamente pensando, a solidão, essa morte lenta que desacelera a vida, que apaga a memoria dos novos, e dos velhos, com uma borracha cobarde, que desliga tudo ao seu passar.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O que poderia ser isto?

A madrugada. O momento em que as massas descançam, o momento em que os corpos sucumbem ao repouso apaziguador das suas carnes. O instante em que os corpos esbatem as guardas de honra, dos seus portões da mente e adentramos num frenesim de memórias, ou meras projecções desconexas, em forma de objectos e de gentes em que a noite predomina e os planos se sobrepõem como numa película de filme, cuja cor já gasta, acusa uso indiscriminado.
Nesse instante, em que o contrabalanço dos dois pratos da balança, que ora pende para um lado, ora pende para o outro, discai de vez para o lado onírico, esse lado desactivado da razão.

A mente. Aquele grande pedaço de nós, que tem vontades próprias, e que se desprende com uma facilidade imensa da nossa pele, sempre que adormecemos, é como se a força da gravidade que nos puxa infinitamente para baixo, não tivesse forças tamanhas para segurar o pensamento dentro da nossa morada, e por isso ele corre livre e sem necessidade de pontes, salta entre margens, esticando a mão e tocando no fundo das coisas.
Qualquer massa exerce forças sobre as restantes, num jogo de poder que alguém institui-o dando ordens para que tudo, para lá das varandas dos nossos olhos, girasse em torno de eixos assimétricos que alguém aglutinou dando forças às massas, para depois se esquecer da fórmula, transformando essa aproximação entre os seres, numa queda constante.

A gravitação. Seremos nós planetas em órbitas por delinear? Seremos cada um de nós meros corpos celestes em agitação constante, que só conhecemos o nosso astro singular ao cair do pano.
Somos ou não planetas, indistintos de todo o resto? Seremos até capazes de permanecer eternamente na nossa curva em volta do sol, mesmo que as vezes nos apeteça apanhar boleia das rotas dos outros.
Serão tantas as órbitas paralelas em volta minha que nem dou conta da sua presença. O ser humano continua a ter esta grande capacidade inútil de alcançar o óbvio, por isso só reparamos no outro, quando entramos em rota de colisão, só vemos o outro quando ele está à nossa frente.
Parece ser o universo o maior responsável pela atracção e repulsa dos corpos, pela escolha das órbitas e dos seus desvios do dia-a-dia, até quando alteramos o nosso percurso para o trabalho, indo por outra rua que não a de sempre, puxados por uma força que nos atrai, estamos expostos ao que o universo nos reservar, quem sabe, se com um simples mudar de rua não dá-mos de caras com um novo pedaço de vida, essa pequena pista que nos vai levar ao que nos toca viver a seguir.
É ele que dita a hora, o minuto e o preciso instante em que tudo muda, em que os corpos atraídos pelas suas massas se aproximam de uns e se afastam de outros irreparavelmente, por mais próximos que já possamos ter estado, por mais que os olhares se tenham cruzado, por mais que a vida os tenha colocado no mesmo lugar, apenas nesse instante, cozinhado em lume brando à muito pelo universo, essa presença fará sentido. É ele o verdadeiro maestro, que orquestra todas as notas musicais que somos, para que as massas ecoem finalmente em uníssono.

O corpo e o tempo. Como planetas que somos, de orbitas irrepetíveis, precisamos de bem mais de 365 dias, para completar a nossa curva em volta do sol. Orbitamos em volta desse grande astro que é o tempo, o tempo, essa grande deriva dos objectos, que tudo baliza, que tudo delimita por ser a única estação constante que nos acompanha ao longo da curva em volta do sol. O comboio, esse pode parar a qualquer momento, quer tenham passado 5, 22, 35, 58, 80 ou 95 anos de órbita, quer seja por capricho, obstáculos na via, ou caris enferrujados, o tempo esse, que tudo encaixa, é a constante que nos gera e nos elimina, e no entanto...se o tempo deixasse de existir tudo seria imagem, todo o universo viveria num eterno congelamento, tudo seria emoldurável, permanente, duradouro e constante como até agora só o tempo o podia ser, nenhum fruto mudaria de cor, nenhuma semente podia geminar, nenhuma folha caía ao chão, nunca a pele envelheceria. A chuva deixaria de cair no chão, ficava suspensa eternamente no céu, as órbitas paravam e o sol deixava de exercer força sobre nós, deixaríamos de estar constantemente em queda para passar a estar constantemente suspensos, como a chuva que nunca alcança a terra por não saber cair.

O universo. Viveria uma eternidade à espera que as órbitas retomassem o seu curso, para poder intervir nas nossas vidas, só ecoariam orquestras de silêncio, por nada poder mudar de sítio.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Música de fundo

Mergulho neste ritmo meio frenético de acordes que não decifro, mergulho em águas que desconheço, venho ao cimo de quando em vez, encho os pulmões como uma esponja que afaga o oxigénio no seu interior, volto ao fundo sem conseguir desifrar, pesa-me o corpo, pesam-me os braços, pesam-me as pernas e a alma.
A música deste mergulho dá ritmo as palavras, mas pouco sentido ao que vejo, as profundesas esbatem a som e a luz, pois não revelam os seus muros, a sua imensidão de vazio prolonga este som tornando-o infinito, este som que me trespassa e que depois se afasta de mim, rasga-me em pedaços a carne que tenho vestida. A energia das notas, que não sei quais são, dá um impulso aos restos de coisa quebrada, abrançam-me numa fusão de composto químico em laboratorio.
Deriva a carne que se perdeu para sempre, resta a alma que ainda luta, restam os pulmões que desenho á pressa, resta Ser e não o Ter.