terça-feira, 10 de maio de 2005

Desenho

Quem nos garante que o mundo com o qual estabelecemos relações diariamente, não nos esteja a preparar uma partida para o dia de amanhã?
Por isso mesmo nunca será fácil relacionar o corpo, com ele próprio. Pois se enquanto matéria ele pode ser fragmentado em duas partes completamente opostas. Ou seja, por ventura qualquer um de nós entende que o corpo no seu interior esconde tudo o que de mais belo existe no ser humano. Mas por seu lado também nenhum de nós ousa negar a ideia fria e austera que as componentes orgânicas do nosso próprio interior. Por isso em que ponto da balança nos coloca-mos, ou será que somos daqueles que pensam que é fácil dizer que o interior é que conta! Mas não será exactamente aí onde começam os conflitos de ideias, pois pelo contrário o corpo enquanto matéria, esse sim estabelece na relação com os outros uma relação de grande proximidade. Quer dizer, muitas vezes aquilo que as pessoas pensam só se torna importante quando acontecem reflectidas naquilo que mostram ser.
Sei lá, se calhar não é bem nesta perspectiva que a conversa deveria seguir, mas se bem que há de haver uma só verdade. Mas se existe algo que se não pode negar é o facto do corpo tal como a vida, ser mais um elemento de elementos antagónicos. Melhor dizendo, o corpo é constituído por órgãos frios e amorfos dotados de uma complexidade extrema, que por sua vez cá fora, nos dão um aspecto completamente diferente, mais organizado e muito menos caótico.A meu ver os corpos só ganham, com o seu próprio descobrimento, pois um corpo só o será enquanto objecto único, alias cada pessoa saberá corresponder a sua identidade na forma como isso transparece exteriormente.E quando se fala de Artes do corpo vêm à ideia diversas formas de expressão, que ao fim e ao cabo partilham dos mesmos pressupostos, ou seja, estabelecer sempre uma relação do interior para o exterior de cada um.
Ainda que não seja só por isso! Todos podem intervir nestas relações, pois não será difícil relacionar o trabalho de bailarinos, com actores e de actores com escritores, e de escritores com pintores. Porque a resposta estará sempre nos gestos que cada uns de nós comportam despertam no intuito de fazer qualquer coisa! E mais que não seja, a não ficar indiferentes, e de certo que tanto bailarinos como actores, escritores e pintores nunca se irão esquecer de isso mesmo, que há sempre um corpo, uma matéria a interliga-los.
Pois um corpo é tal qual uma frase, onde cada gesto, cada palavra tem de ser encontrada com exactidão, porque cada diferente gesto e diferente palavra comporta uma diferente carga, que só um bom conhecimento dos movimentos do corpo e da força das palavras poderá fazer que a sua utilização seja sempre aquela e não outra qualquer que lhe queiram dar!
Muito embora ninguém nos garanta que o mundo seja uma realidade concreta e objectiva mais do que a de um cenário imaginado num sonho?